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Ficha Artística e Técnica

Texto a partir d´ A Incrível e triste história de cândida Erêndira e sua Avó Desalmada de Gabriel García Marquez

 

Direcção e Adaptação

Rita Lello

 

Assistente Encenação:

Rita Soares

 

Espaço Cénico

Rita Lello

 

Carpintaria

Mário Dias

 

Figurinos

Maria do Céu Guerra

 

Adereços

Marta Fernandes da Silva

 

Assistente Guarda-Roupa

Sérgio Moras

 

Costureira

Zélia Santos

 

Selecção Musical

Rita Lello

 

Música original e arranjos

João Maria Pinto

 

Desenho de Luz, Video e Edição

Paulo Vargues

 

Sonorização

Ricardo Santos

 

Assistência à Montagem

Fernando Belo

 

Animações

Paulo Vargues

 

Relações Públicas e Produção

Inês Costa, Paula Coelho, Sónia Barradas

 

Fotografia

Ricardo Rodrigues

 

Elenco

Maria do Céu Guerra

João Maria Pinto

Sara Rio Frio

Adérito Lopes

João Parreira

Rita Soares

Ruben Garcia

Samuel Moura

Sérgio Moras

Estagiários:

Alexandre Castro, Diogo Varela

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Texto a partir d´ A Incrível e triste história de cândida Erêndira e sua Avó Desalmada de Gabriel García Márquez

“Estava Erêndira a dar banho à Avó quando começou o vento da sua desgraça”. É com estas palavras que o prémio Nobel da literatura, Gabriel García Marquez, abre a novela curta que está na base deste espectáculo. Usando como pano de fundo a triste realidade da exploração sexual de menores na profunda Colômbia mágica, Gabo dá-nos a conhecer a relação de exploração entre uma Avó desalmada e uma neta cuja candidez e cega obediência suporta extremos de violência sexual impensáveis. “Se as coisas continuarem assim pagas-me a dívida dentro de oito anos, sete meses e onze dias.“, contabiliza a Avó. Se tivermos em conta que a média diária são setenta homens a quem Erêndira presta por dia os seus serviços, teremos ideia do nível da exploração que este corpo de 14 anos acabados de fazer terá de suportar, da crueldade da avó e do desnorte a que chega uma sociedade indígena violentada por missionários evangelizadores e regida por militares sem escrúpulos. Não podendo olhar para esta narrativa senão como uma metáfora, e tendo em conta que García Marquez é um escritor que aliou como poucos uma escrita mágica às preocupações sociais e politicas, não é estranho que ela nos evoque imediatamente a relação de exploração existente entre países ricos e países pobres. A dívida de Erêndira; nascida de um descuido numa desgraçada noite de vento em que, caída de cansaço, adormeceu antes de apagar uma vela; vai aumentando à medida que a paga. A avó rejuvenesce a cada pagamento que recebe da mão dos tais setenta homens que por dia se servem de Erêndira. Rumo ao mar, embalada pelos amores sonhados com contrabandistas sedutores a caminho da travessia para a desejada ilha de Aruba, a baleia irá morrer na praia às mãos de Ulises amantíssimo anjo libertador de uma Erêndira que nunca mais parará de correr.

Para a estrutura do trabalho de adaptação, inspirei-me nas Station Plays, prodigiosa herança novecentista do teatro medieval que, ao libertar-nos da prisão da narrativa realista, permite que de estação em estação o espectáculo estacione para o teatro ter lugar. Esta opção nasce do reconhecimento de que, na escrita de García Marquez existe uma Erêndira que é também ela, na sua itinerância, uma mártir levada, de estação em estação, a cumprir a sua Paixão, o seu Calvário.

E então o espectáculo. E então escolher, abdicar, experimentar. Encontrar um espaço cénico que permita contar uma história que atravessa a Colômbia imaginada de García Marquez, ir ao encontro de um ambiente que permita ao realismo mágico respirar. Aplicar recursos múltiplos e usá-los sempre de modo a perseguir a artesanalidade inaugural de todos os desfloramentos. A artesanalidade dos pobres. Neste teatro não está o texto no centro, não está a palavra na boca do actor. O texto de García Marquez é um texto de imagens, um texto para ser imaginado, não para ser dito mas para ser lido. Para ser visto com a imaginação.

Rita Lello

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